O Banco Central Europeu rejeitou na sexta-feira uma proposta que teria flexibilizado as exigências de liquidez para emissores de stablecoins em euro e concedido a eles acesso à liquidez do BCE, informou a Reuters, citando três pessoas familiarizadas com discussões reservadas. A proposta surgiu de uma nota de política do think tank de Bruxelas Bruegel, apresentada a ministros das Finanças da UE e governadores de bancos centrais em uma reunião informal de dois dias em Nicósia, no Chipre. A presidente do BCE, Christine Lagarde, e vários outros banqueiros centrais se opuseram ao plano, argumentando que permitir que emissores de stablecoins sacassem depósitos de bancos europeus em grande escala aumentaria os custos de captação dos credores e reduziria sua capacidade de estender crédito. Vários responsáveis também rejeitaram a ideia de transformar o BCE em um “dáqui” para empresas de stablecoins, um papel tradicionalmente reservado a bancos supervisionados. A intervenção reflete a posição de Lagarde delineada mais cedo neste mês, na qual ela afirmou que qualquer benefício que uma stablecoin em euro possa trazer para o status internacional da moeda é superado pelos riscos à estabilidade financeira e à transmissão da política monetária.
Preocupações Declaradas pelo BCE
Lagarde tem priorizado consistentemente a estabilidade em vez da expansão de stablecoins. Em um fórum do Banco de Espanha, ela argumentou que “o caso para promover stablecoins denominadas em euro é muito mais fraco do que parece”. Em vez disso, ela apontou depósitos bancários tokenizados e os projetos de liquidação por atacado Pontes e Appia do BCE como a infraestrutura de on-chain adequada para a Europa.
Banqueiros centrais na reunião de Nicósia também pressionaram por restrições de resgate para stablecoins, independentemente de onde sejam emitidas, alertando que, sem tais limites, um braço europeu poderia enfrentar uma corrida sobre reservas se detentores estrangeiros sacassem em grande escala.
Proposta da Bruegel e Justificativa
A nota de política foi escrita por Lucrezia Reichlin, Bo Sangers e Jeromin Zettelmeyer. Os autores argumentaram que regras mais permissivas e um backstop do BCE são necessários para ampliar um mercado de stablecoin em euro que permanece marginal em um setor dominado por tokens em dólar. A Bruegel enquadrou o tema como uma questão de competitividade, alertando que manter regras da UE mais rígidas do que a US GENIUS Act, sancionada em julho de 2025, levará a emissão e a negociação para fora do território e acelerará o que eles chamaram de “digitalização do dólar”.
Banqueiros centrais na reunião minimizaram essa preocupação, segundo a Reuters.
Estrutura Regulatória e Dinâmica de Mercado
O recuo ocorre enquanto a Comissão Europeia revisa seu Regulamento sobre Mercados de Cripto-Ativos (MiCA), em vigor desde 2024, que exige que emissores de stablecoins mantenham uma grande parcela das reservas em depósitos bancários e outros ativos líquidos. A estrutura dos EUA impõe exigências mais leves, abordagem que defensores enquadram como uma forma de consolidar a dominância do dólar por meio de tokens regulados, destacou a Reuters.
Apesar do debate regulatório, emissores privados estão avançando de forma independente. O consórcio Qivalis, uma joint venture com sede em Amsterdã que busca autorização do De Nederlandsche Bank, cresceu para 37 bancos em 15 países e planeja lançar uma stablecoin em euro compatível com MiCA no segundo semestre deste ano. O grupo conta com BNP Paribas, ING, UniCredit, CaixaBank e Danske Bank entre seus fundadores, e recentemente adicionou ABN Amro, Rabobank, Nordea e Intesa Sanpaolo. A Reuters citou o lançamento da Qivalis junto com esforços anteriores da Societe Generale como evidência de que bancos europeus não estão esperando o debate regulatório se estabilizar.
Escala e Atividade do Mercado
A oferta global de stablecoins cresceu em cerca de um terço em 2025 para US$ 300 bilhões, segundo dados da Artemis citados no artigo da Bruegel. Tokens atrelados ao euro representam apenas 0,3% desse total, com o EURC da Circle sendo o maior. A atividade de stablecoins na Europa, no entanto, ainda respondeu por 38% do volume global de transações no último trimestre de 2025, disse a Reuters.
O Caminho Alternativo do BCE
O BCE ainda pretende lançar um euro digital até 2029, e ministros das Finanças da UE reafirmaram na reunião de Nicósia que o trabalho no projeto continuará, segundo a Reuters. O desenho preferido por Lagarde mantém dinheiro baseado em depósitos dentro de bancos supervisionados, enquanto permite que representações tokenizadas desses depósitos operem em redes de distributed-ledger junto com um futuro euro digital, deixando emissores privados de stablecoins fora do perímetro de proteção do banco central. Bancos europeus também resistiram separadamente à iniciativa de varejo de CBDC com base no argumento de que a adoção poderia puxar depósitos para fora do sistema, em paralelo às preocupações com captação agora levantadas contra stablecoins privadas em euro.