De duas leis fiscais às stablecoins: a história monetária da China nas formas de pagamento, comércio e cooperação

No fim de semana em casa a folhear livros, li alguns materiais sobre as duas leis de impostos da dinastia Tang e a história da moeda na China, e tive algumas reflexões novas sobre o valor das moedas digitais, representadas pelas stablecoins, no momento atual. Organizei essas ideias em um texto para compartilhar e discutir com todos.

Nos últimos anos, a indústria de pagamentos em criptomoedas tem estado muito aquecida, com conceitos surgindo um após o outro: stablecoins, PayFi, liquidação on-chain, RWA, pagamentos com agentes de IA. Muitas discussões no setor focam na perspectiva técnica, como transferências mais rápidas na blockchain, custos menores, operação 24/7, independência de bancos tradicionais. Claro que esses pontos são relevantes, mas se entender as stablecoins apenas sob o aspecto técnico, pode-se perder uma compreensão mais ampla.

O verdadeiro questionamento que vale a pena fazer é: por que, justamente hoje, o mercado global começa a precisar cada vez mais de stablecoins? Por que, após vinte anos de internet, que resolveu o fluxo de informações, o fluxo de dinheiro ainda parece tão pesado? Por que algo que parece ser apenas uma “certificação de dólar na blockchain” está se tornando uma ferramenta fundamental em comércio transfronteiriço, colaboração remota, transações criptográficas e em alguns mercados emergentes?

Se ampliarmos a perspectiva, voltando à história da moeda na China, perceberemos que a evolução monetária nunca foi apenas uma evolução tecnológica. Não foi uma invenção genial de alguém que criou uma nova ferramenta e a sociedade automaticamente adotou. O que realmente impulsiona a mudança na moeda são as transformações nas finanças públicas, nas redes comerciais e nas formas de colaboração em larga escala. Quanto menor o raio de cooperação de uma sociedade, menor a importância da moeda; quanto maior esse raio, mais complexa a divisão do trabalho, mais frequentes as transações, maior a necessidade de um meio de liquidação unificado, confiável e de baixo atrito. Na história da China, do sistema de alugueis e impostos ao sistema de duas leis de impostos, do uso de moedas de cobre, ferro, papel moeda, até a monetização de prata na dinastia Ming e Qing, tudo isso responde a uma mesma questão: o sistema monetário anterior já não suportava mais a escala de cooperação emergente.

1. Como o Estado faz moeda

No início da dinastia Tang, o sistema fiscal baseava-se principalmente no sistema de terras igualitárias e no sistema de alugueis e impostos. O Estado concedia terras, os agricultores dependiam dessas terras para produzir, e, por sua vez, entregavam ao Estado alimentos, tecidos e cumpriam obrigações de trabalho. Esse sistema, essencialmente, não era um sistema fiscal baseado em moeda, mas em bens físicos. A relação principal entre o Estado e o povo não era “você ganha dinheiro, eu arrecado impostos”, mas “você cultiva a terra, eu recolho grãos; você tem força de trabalho, eu mobilizo”. Por trás disso, havia uma estrutura social relativamente estável, de baixa mobilidade, centrada na produção agrícola.

Para que essa estrutura funcionasse, era necessário que a população e a relação com a território permanecessem relativamente estáveis. Após a Revolta de An Shi, porém, a base social da Tang foi severamente destruída. A mobilidade populacional aumentou, a concentração de terras se expandiu, e os governos locais (藩镇) enfraqueceram o controle central sobre os recursos locais, elevando a pressão sobre as finanças do Estado.

Em 780, o imperador Dezong adotou a proposta de Yang Yan e implementou a lei de duas taxas.

A lei de duas taxas é frequentemente entendida como “duas cobranças anuais, uma no verão e outra no outono”, mas o mais importante não é o momento da cobrança, e sim a mudança na lógica fiscal: a arrecadação passou a se basear cada vez mais em ativos, terras e moeda, com o Estado adotando regras fiscais mais unificadas, substituindo o sistema de arrecadação baseado em controle pessoal e de terras.

O significado histórico da lei de duas taxas fica especialmente claro na história da moeda. No passado, os agricultores entregavam alimentos e tecidos, e teoricamente não precisavam se aprofundar no mercado. Mas, à medida que a carga tributária passou a precisar de conversão em moeda, os agricultores tiveram que vender seus produtos no mercado, trocar por dinheiro e usar esse dinheiro para liquidar suas obrigações com o Estado. Assim, a finança do Estado não era mais passivamente adaptada à economia monetária, mas passava a criar ativamente a demanda por moeda.

A arrecadação de impostos desempenha aqui um papel crucial: ela não é uma simples demanda de troca, mas uma demanda compulsória respaldada pelo poder do Estado. Desde que o Estado exija que você pague impostos em uma determinada moeda, você precisa encontrar uma forma de obtê-la. Dessa forma, a moeda deixa de ser apenas uma ferramenta de troca que surge espontaneamente no mercado, e passa a ser o ponto de conexão entre o sistema fiscal estatal e as atividades econômicas sociais.

Isso também é fundamental para entender a moeda de hoje. Por que a moeda moderna consegue ser considerada moeda? Não é só por sua conveniência, nem pelo valor do papel, das contas digitais ou dos sistemas de pagamento eletrônico. O que a sustenta é o reconhecimento do Estado, a aceitação de impostos e a proteção jurídica às dívidas denominadas nela. Após a lei de duas taxas, a finança chinesa começou a se mover de uma finança de bens físicos para uma finança monetária, o que representa uma mudança não só na técnica de arrecadação, mas na forma de governança do Estado. O Estado deixou de se contentar em simplesmente pegar bens concretos, e passou a usar a moeda como uma ferramenta abstrata para unificar e coordenar recursos dispersos em diferentes regiões, setores e grupos sociais.

2. A cooperação impulsiona a moeda

Na dinastia Song, essa lógica se aprofundou ainda mais. A economia de mercado na Song era mais vibrante do que na Tang, com crescimento das cidades, desenvolvimento de manufaturas e comércio, e aumento na frequência de trocas inter-regionais.

A importância da história econômica da Song não está só na sua prosperidade, mas na evidência de uma cooperação em larga escala. Quando o escopo da cooperação aumenta, a troca de bens físicos se torna rapidamente ineficiente. Você não consegue usar um caminhão de grãos para comprar uma pequena quantidade de bens de alto valor, nem fazer cada transação transregional com avaliação e transporte de bens físicos de forma ad hoc.

O valor real da moeda está em comprimir essas relações complexas de cooperação em uma unidade comum de valor e liquidação. Ela reduz custos de transação e de confiança. Graças à moeda, um comerciante de Hangzhou, um salmão de Sichuan, um fornecedor de suprimentos militares do Norte podem colaborar em momentos, locais e relações de crédito diferentes. Quanto mais unificada e confiável for a moeda, mais fácil será aprofundar a divisão do trabalho social; e quanto mais essa divisão se aprofundar, maior será a demanda por moeda.

Porém, na dinastia Song, enfrentaram um problema real: a oferta de moedas de cobre não acompanhava a expansão econômica. Na era do metal, a emissão de moeda não é algo que se faz à vontade; a produção de cobre, os custos de cunhagem e o transporte limitam essa emissão. Na região de Sichuan, por exemplo, devido à escassez de moedas de cobre, usava-se ferro por muito tempo, mas o ferro tinha baixo valor, peso elevado e altos custos de transporte, o que não favorecia transações frequentes e de longo alcance.

A emergência de jiaozi (交子) não deve ser vista apenas como “a primeira nota de papel do mundo”. Seu significado mais profundo é que, quando o metal não consegue mais atender às necessidades de cooperação comercial, a moeda de crédito começa a surgir. As primeiras jiaozi podem ser entendidas como certificados de troca, apoiados na confiança do emissor e em arranjos de conversão. Mas, uma vez aceitas pelo mercado, deixam de ser apenas recibos de depósito, e passam a ter circulação própria.

O valor do papel-moeda não vem do papel em si, mas da confiança, do sistema e do consenso. Ele resolve problemas de insuficiência de moeda metálica, transporte de longo alcance e altos custos de transação. Em outras palavras, o papel-moeda não foi inventado do nada, mas emergiu da necessidade de uma cooperação comercial em larga escala.

Claro que o papel também traz riscos. A moeda metálica tem limites naturais: se não há cobre suficiente, não se pode cunhar mais dinheiro. A emissão de papel, por sua vez, depende de um sistema confiável. É mais fácil imprimir papel do que extrair cobre, mas, se a disciplina fiscal não for forte, o papel pode ser superemitido por guerras, déficits fiscais ou pressões políticas. A história do papel-moeda na China desde cedo revelou os principais problemas da moeda de confiança: por um lado, ela pode romper limites de oferta de metais, sustentando transações maiores; por outro, se faltar credibilidade na emissão, ela rapidamente prejudica a confiança na moeda.

3. A ascensão da prata como consenso

Avançando na história, chegamos a um momento crucial: a ascensão da prata. Por que a prata é importante? Não porque seja naturalmente mais “nobre” que o cobre, mas porque a escala de cooperação na China se expandiu ainda mais, especialmente com o comércio exterior e a necessidade de liquidação transregional.

A monetização da prata na dinastia Ming não foi só uma decisão estatal. A entrada de prata estrangeira e a formação de uma moeda principal de prata são consensos históricos; mais do que isso, é preciso entender que ela se consolidou a partir de mercados, comércio regional e expansão do comércio global, e não apenas por uma imposição estatal.

A prata não foi primeiramente projetada pelo Estado e depois aceita pela sociedade. Ela foi ganhando uso na esfera privada, no comércio regional e internacional, antes de ser incorporada ao sistema fiscal e reforçada pelo Estado. A implementação de reformas fiscais, como a Lei de Uma Só Cobrança (一条鞭法), que vinculou impostos à prata, criou um ciclo de “aceitação no mercado—reconhecimento estatal—reforço fiscal—expansão comercial”.

Esse ciclo é a chave para que uma moeda possa se tornar uma grande moeda: precisa de reconhecimento estatal e de consenso de mercado. Se só o Estado reconhece, ela fica restrita à esfera administrativa; se só o mercado aceita, sua escala e estabilidade ficam limitadas. A ascensão da prata na China durante Ming e Qing se deu porque ela atendia a várias condições: necessidade de uma unidade de valor de alto valor para o mercado interno, aceitação pelo sistema fiscal, entrada maciça de prata estrangeira, reconhecimento pelos comerciantes internacionais, e disposição dos indivíduos de usá-la como reserva de valor.

4. O papel das stablecoins

De uma perspectiva histórica, ao olharmos para as stablecoins hoje, fica mais fácil entender por que elas estão sendo aceitas. As stablecoins têm vantagens técnicas, como transferências rápidas na blockchain, liquidação quase instantânea, alta acessibilidade transfronteiriça. Mas esses não são os aspectos mais importantes.

O valor real das stablecoins está em se tornarem um “meio de liquidação” comum na economia digital global.

Hoje, a internet globalizada facilita a colaboração de informações: uma equipe na China atende clientes no Oriente Médio, uma empresa em Singapura contrata desenvolvedores na América Latina, um produto de IA acessa APIs nos EUA, engenheiros na Índia e clientes na Europa. Mas, sob o sistema bancário tradicional, o fluxo de fundos ainda é limitado por horários de funcionamento, redes de liquidação internacional, regulações cambiais, acesso às contas e taxas. A informação é global, mas o fluxo de valor ainda não é.

O Banco de Pagamentos Internacionais, em seu relatório de 2026 sobre tecnologia de pagamentos transfronteiriços, aponta que, especialmente em remessas e transações de varejo, o custo, a velocidade, a acessibilidade e a transparência ainda são inferiores às de pagamentos domésticos, e uma das principais limitações é a baixa interoperabilidade entre diferentes sistemas de pagamento. Isso explica por que as stablecoins têm mercado: não porque “o mercado de cripto gosta de novidades”, mas porque a economia digital global precisa de uma camada de liquidação mais flexível do que as contas bancárias tradicionais.

Claro que as stablecoins também têm problemas. O Banco de Compensações Internacionais discute que elas podem gerar arbitragem regulatória, riscos de resgate, fluxo ilícito de fundos, impacto potencial nos depósitos bancários e na estabilidade financeira. Se a redução de fricção nas transações transfronteiriças impulsionar o fluxo de fundos, também há riscos de evasão regulatória e instabilidade financeira. Assim como a história mostra, uma moeda não é perfeita por si só: ela tem potencial de melhorar a eficiência da cooperação, mas também enfrenta limites de crédito e governança.

Porém, do ponto de vista histórico, o que determina se uma ferramenta monetária evolui ou não é se ela resolve problemas reais de cooperação. As jiaozi tinham riscos, mas resolveram o problema do peso do ferro e da escassez de cobre; a prata tinha volatilidade, mas resolveu a liquidação transregional e internacional. As stablecoins hoje também. Elas são adotadas por usuários, comerciantes e instituições porque, em certos cenários, são mais adequadas do que as ferramentas financeiras tradicionais para a cooperação digital em larga escala.

A maior semelhança entre stablecoins e prata não é que “ambas valem dinheiro”, mas que ambas conquistaram consenso transregional. A aceitação da prata na antiga rede de comércio do Leste Asiático ocorreu porque diferentes regiões, entidades políticas e grupos de comerciantes estavam dispostos a reconhecê-la. Hoje, USDT, USDC e outras stablecoins circulam porque ganharam reconhecimento na negociação cripto, no comércio transfronteiriço, em pagamentos em mercados emergentes, em trabalho remoto e liquidação de ativos digitais. Mesmo que comerciantes em Dubai, desenvolvedores na Ásia, usuários na América Latina e comerciantes na África não tenham o mesmo sistema bancário, podem aceitar usar stablecoins para liquidação. Esse consenso não está escrito em livros, mas se forma nas transações diárias.

Por outro lado, há uma diferença importante: a prata é um metal precioso, e sua credibilidade vem de suas propriedades físicas; a credibilidade do dólar está na confiança no sistema financeiro dos EUA e na reserva de dólares. Ou seja, stablecoins não são uma “moeda de mercado pura” desvinculada do crédito estatal; pelo contrário, elas são uma extensão do crédito do dólar na blockchain. No passado, o dólar tinha influência global por meio de bancos, SWIFT, mercados de títulos do Tesouro; hoje, as stablecoins podem entrar em mais cenários de uso através de carteiras, blockchain e plataformas digitais. Elas têm uma camada de tecnologia criptográfica, mas também um núcleo financeiro tradicional. Por isso, seu desenvolvimento futuro depende de regulamentação, transparência de reservas, combate à lavagem de dinheiro, arranjos de resgate e conformidade do emissor.

5. Lições para o setor

Voltando à indústria de pagamentos em criptomoedas, podemos tirar uma conclusão mais simples e importante: o futuro do setor não depende de conceitos novos, mas de sua capacidade de servir a uma cooperação real em maior escala. Se as stablecoins ficarem restritas às plataformas de troca, seu valor será limitado ao mercado de criptoativos. Mas se conseguirem entrar em comércio transfronteiriço, serviços digitais, pagamentos com IA, trabalho remoto, cadeias de suprimentos e mercados emergentes, podem se tornar a infraestrutura da próxima geração da economia digital global.

Na história, a importância da prata não está só na sua beleza, mas na sua capacidade de sustentar uma rede de comércio maior. O significado das stablecoins também não é só a adição de uma ferramenta ao universo cripto, mas a possibilidade de suportar uma nova forma de cooperação global.

De duas leis de impostos, jiaozi, prata, até as stablecoins de hoje, vemos uma mesma linha histórica:

  • Mudanças na governança do Estado impulsionam a monetização fiscal

  • Expansão do comércio leva o mercado a buscar meios de liquidação mais eficientes

  • Crescimento da cooperação transregional faz a moeda evoluir de uma ferramenta local para um meio comum mais amplo

Hoje, as oportunidades na indústria de pagamentos em criptomoedas também seguem essa linha.

As stablecoins são reconhecidas não só por sua velocidade, mas porque atendem a uma demanda real de liquidação na economia digital global. Elas não são apenas uma ferramenta do setor, mas uma potencial infraestrutura de uma nova cooperação global.

A história não se repete de forma simples, mas frequentemente apresenta estruturas semelhantes.

Só quando uma ferramenta monetária é realmente necessária pelo mundo real, ela pode passar de uma ferramenta setorial a uma infraestrutura de época.

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