No primeiro trimestre de 2026, a empresa de mineração de Bitcoin MARA Holdings realizou uma mudança estratégica de grande envergadura. Entre 4 e 25 de março, a empresa vendeu aproximadamente 15 133 Bitcoins em várias tranches, gerando cerca de 1,1 mil milhões $ em receitas. As suas reservas diminuíram abruptamente cerca de 28%, passando de 53 822 para 38 689 Bitcoins. Considerando todo o trimestre, a MARA vendeu 20 880 Bitcoins a um preço médio de 70 137 $ cada, totalizando aproximadamente 1,5 mil milhões $. Paralelamente a esta venda em larga escala, a MARA anunciou que deixaria de efetuar grandes aquisições de ASIC miners, passando a centrar-se em inteligência artificial e infraestruturas de computação de alto desempenho.
Esta mudança foi motivada diretamente por pressões financeiras. No 1.º trimestre de 2026, o preço do Bitcoin caiu de cerca de 87 000 $ para 68 000 $ — uma descida de 22% — o que reduziu significativamente o justo valor das reservas de Bitcoin da MARA no seu balanço. A empresa reportou um prejuízo líquido de aproximadamente 1,3 mil milhões $, sendo que as perdas não realizadas resultantes da variação do justo valor dos ativos digitais representaram 1 mil milhões $. Entretanto, a produção de mineração do trimestre foi de apenas 2 247 Bitcoins, com um custo médio de produção de 76 288 $ por moeda. À data da venda, os preços de mercado tinham descido para 70 137 $, o que significa que a atividade de mineração operava com prejuízo contabilístico.
Para além dos resultados financeiros, a MARA enfrenta desafios estruturais mais profundos: um modelo de negócio exclusivamente dependente da mineração de Bitcoin torna-se cada vez mais vulnerável à volatilidade dos preços, especialmente com o agravamento dos ciclos de halving e o aumento dos custos energéticos. A aposta na infraestrutura de IA representa uma decisão estratégica para este antigo segundo maior detentor de reservas de Bitcoin, numa altura em que o setor atravessa uma transformação significativa.
Como podem ocorrer simultaneamente perdas financeiras e expansão do hashrate?
No 1.º trimestre de 2026, a MARA atingiu um hashrate energizado recorde de 72,2 EH/s, um aumento de 33% em termos homólogos. Contudo, a expansão operacional não se traduziu numa melhoria do desempenho financeiro. O volume de negócios do trimestre foi de 174,6 milhões $, uma descida de 18% face ao período homólogo e abaixo das expectativas dos analistas, que apontavam para 192,7 milhões $. A principal razão para a quebra de receitas não foi a redução da produção — o crescimento do hashrate compensou parcialmente a menor produção — mas sim a descida de cerca de 18% do preço médio do Bitcoin em relação ao mesmo período do ano anterior, reduzindo drasticamente o rendimento em moeda fiduciária por bloco.
Do lado dos custos, as despesas de aquisição de energia da MARA aumentaram de 35 728 $ para 40 047 $ por Bitcoin em termos homólogos. Incluindo depreciações, custos de gestão e dívida, o custo total por Bitcoin situou-se entre 60 000 $ e 70 000 $. Isto significa que os mínimos do preço do Bitcoin durante o trimestre estiveram próximos — ou mesmo ao nível — do ponto de equilíbrio da empresa.
Outra fonte relevante de perdas foi o tratamento contabilístico. A MARA avalia as suas reservas de Bitcoin ao justo valor, pelo que as quedas de preço refletem-se diretamente nos resultados do período, originando perdas não realizadas. Estas perdas não correspondem a saídas de caixa, mas evidenciam o risco de balanço associado à detenção de Bitcoin em períodos de baixa do mercado. Após vender Bitcoin para recomprar obrigações convertíveis com desconto, a dívida total da MARA desceu de 3,3 mil milhões $ para cerca de 2,3 mil milhões $ — uma redução de 1 mil milhões $ — permitindo ainda uma poupança de aproximadamente 88,1 milhões $ em encargos com juros.
Como mudou a posição da MARA no setor global da mineração?
Em termos de hashrate, a MARA mantém-se entre os líderes do setor. No entanto, a sua capitalização bolsista caiu da posição de maior empresa de mineração de Bitcoin para o sétimo lugar. Esta alteração não resulta apenas da quebra de desempenho da MARA — alguns concorrentes conquistaram maior reconhecimento do mercado através de uma transição mais rápida para a IA e de estruturas de capital otimizadas, o que se traduziu em avaliações mais resilientes.
A posição da MARA entre as empresas cotadas que detêm Bitcoin alterou-se ainda mais drasticamente. Após a venda no 1.º trimestre, a MARA caiu do segundo para o quarto lugar no ranking de reservas de Bitcoin de empresas públicas. A Strategy (antiga MicroStrategy) mantém a liderança com cerca de 843 738 BTC, enquanto a japonesa Metaplanet ascendeu ao terceiro lugar graças a aquisições frequentes no 1.º trimestre de 2026. O declínio da MARA, a par do aumento de outros, reflete o aprofundamento das divergências nas estratégias de reservas de Bitcoin das empresas públicas: a Strategy recorre ao financiamento por ações preferenciais para sustentar aquisições contínuas, enquanto a MARA canaliza fundos para novas áreas de negócio além do hashrate.
Como apoia a aquisição da Long Ridge a transição da MARA para a infraestrutura de IA?
A 30 de abril de 2026, a MARA anunciou a aquisição, por 1,5 mil milhões $, da Long Ridge Energy & Power, no Ohio, que inclui uma central elétrica de ciclo combinado a gás natural de 505 MW e mais de 1 600 acres de terreno contíguo. No segundo semestre de 2025, a central apresentou um EBITDA ajustado anualizado de cerca de 144 milhões $, com aproximadamente 76% da capacidade contratada em acordos swap a um preço médio ponderado de 38,80 $/MWh. O custo operacional total situa-se abaixo de 15 $/MWh. A infraestrutura dispõe ainda de cerca de 100 milhões de pés cúbicos de fornecimento diário de gás natural associado, garantindo mais de 20 anos de autonomia energética.
Esta aquisição aumentou em 65% a capacidade própria e operada da MARA, atingindo um total de cerca de 2,2 GW nos mercados PJM, ERCOT, SPP e internacionais. Segundo o plano, a Long Ridge pode escalar para aproximadamente 600 MW de carga de IA no curto prazo, com potencial total superior a 1 GW. A primeira fase de construção de carga crítica de IA e TI deverá iniciar-se no primeiro semestre de 2027, estando prevista a entrada em operação comercial para meados de 2028.
Para além da Long Ridge, a MARA celebrou em fevereiro de 2026 uma parceria estratégica com a Starwood Digital Ventures, visando converter algumas das atuais instalações de mineração em data fabrics de IA. A colaboração prevê mais de 1 GW de capacidade instantânea de TI, com a MARA a reter até 50% do capital na joint-venture para participação em fluxos de caixa futuros. A empresa adquiriu ainda uma participação de 64% na Exaion, reforçando as suas capacidades em IA empresarial e infraestrutura cloud soberana.
Em termos estratégicos, a MARA está a passar de "consumir eletricidade para minerar" para "possuir eletricidade e alocá-la às aplicações de maior valor" — incluindo treino e inferência de IA, cargas críticas de TI e mineração de Bitcoin. Cerca de 90% da capacidade de mineração própria da MARA poderá vir a ser realocada para operações de IA e TI no futuro. Esta abordagem, que considera os recursos energéticos como ativos centrais para entrar no mercado de computação de IA, distingue-se claramente das restantes empresas de mineração nos EUA.
Venda de Bitcoin e aposta na IA: quais são as principais controvérsias do mercado?
A venda em larga escala e a mudança estratégica da MARA suscitaram um intenso debate no mercado.
As perspetivas negativas argumentam que a MARA vendeu uma quantidade significativa de Bitcoin a um preço médio de 70 137 $ próximo dos mínimos de março de 2026. Meses antes, a empresa tinha financiado compras de Bitcoin através da emissão de obrigações convertíveis sem cupão. Esta rápida inversão de "comprar e manter" para vender e financiar pode sinalizar sérias dúvidas quanto à sustentabilidade do modelo de acumulação de reservas de Bitcoin. Embora a aposta na IA traga uma nova narrativa, trata-se de um setor intensivo em capital e altamente competitivo; a MARA ainda não celebrou qualquer contrato de HPC, pelo que o seu modelo de negócio em IA permanece por provar.
As perspetivas favoráveis defendem que a transformação da MARA assenta em vantagens patrimoniais quantificáveis. As instalações próprias apresentam custos energéticos em torno de 0,04 $/kWh, entre os mais baixos do setor nos EUA. Ao alavancar este fator, a realocação dos recursos energéticos para infraestrutura de IA representa uma reprecificação dos ativos existentes — não o abandono do negócio original. As recompras de dívida com desconto geraram cerca de 71 milhões $ em ganhos contabilísticos e eliminaram custos de juros futuros, melhorando substancialmente a estrutura de capital. Do ponto de vista da alocação de ativos a longo prazo, deter centrais elétricas e data centers proporciona fluxos de caixa mais estáveis e oportunidades de monetização diversificadas, em comparação com a mera operação de rigs de mineração.
Qual o impacto das políticas regulatórias no percurso da MARA e no setor de mineração de Bitcoin nos EUA?
No início de 2026, a regulação federal norte-americana sobre a mineração de Bitcoin transmite sinais duplos e complexos.
Do lado favorável, senadores republicanos apresentaram em março de 2026 o "Mined in America Act", propondo um programa federal voluntário de certificação para apoiar a mineração doméstica de criptoativos e eliminar gradualmente a dependência de hardware estrangeiro. Adicionalmente, a SEC e a CFTC emitiram orientações conjuntas clarificando que as recompensas de mineração ao abrigo do mecanismo proof-of-work do Bitcoin não são consideradas valores mobiliários, eliminando uma incerteza regulatória de longa data.
Do lado restritivo, a administração Biden reintroduziu em março de 2026 a proposta de "Digital Asset Mining Energy Tax", visando aplicar um imposto de 30% sobre o consumo de eletricidade utilizado na mineração de Bitcoin. Caso seja aprovada, esta medida minará diretamente a vantagem de custos dos mineradores norte-americanos, incluindo a MARA.
A tensão entre estas linhas políticas é uma variável determinante para o desenvolvimento futuro do setor. Empresas de grande escala, com fornecimento energético estável e operações em conformidade, estão melhor posicionadas do que mineradores mais pequenos e descentralizados para suportar o impacto de impostos sobre eletricidade e cumprir requisitos de certificação. A transição da MARA de "consumidor de eletricidade" para "proprietário de eletricidade" pode ser vista como uma resposta proativa ao risco regulatório: ao controlar a capacidade de geração, é possível integrar verticalmente a operação, ajustar custos e reduzir a exposição a variações externas de preços e impostos sobre energia.
Será a "migração coletiva do hashrate" dos mineradores de Bitcoin uma modernização estrutural ou uma retirada estratégica?
A mudança estratégica da MARA não é um caso isolado. No 1.º trimestre de 2026, várias empresas de mineração cotadas no Nasdaq lançaram iniciativas de transformação quase em simultâneo. As receitas de hosting de IA da Core Scientific já superaram as receitas de mineração de Bitcoin, tornando-se a sua principal fonte de rendimento. A IREN assinou um contrato de serviços cloud de IA de cinco anos com a NVIDIA, no valor de 3,4 mil milhões $, tendo as receitas de cloud de IA crescido 94,2% em cadeia. No final do trimestre, os mineradores cotados tinham celebrado contratos superiores a 70 mil milhões $ em IA e HPC.
O principal motor destas mudanças é o agravamento estrutural da rentabilidade unitária da mineração. O halving do Bitcoin reduziu as recompensas por bloco de 6,25 BTC para 3,125 BTC há mais de um ano, e o impacto reflete-se integralmente nas estruturas de receitas. Entretanto, o hashrate da rede continua a aumentar, mas os preços do Bitcoin não acompanham. Os custos de mineração por moeda aproximam-se — ou até ultrapassam — os preços de mercado em determinados momentos, e o retorno marginal da expansão do hashrate está em declínio.
A abordagem da MARA difere dos seus pares: a Core Scientific e a IREN prestam sobretudo serviços de hosting de computação de IA através de contratos com terceiros, enquanto a MARA aposta numa integração vertical profunda, detendo diretamente ativos energéticos. O modelo que garantirá uma vantagem competitiva sustentada dependerá de fatores como eficiência de capital, poder de negociação contratual e execução operacional.
Conclusão
A mudança estratégica da MARA Holdings no 1.º trimestre de 2026 representa um ajuste estrutural paradigmático para a mineração de Bitcoin, num contexto de ciclos de halving cada vez mais exigentes e crescente procura por computação de IA. A empresa reduziu o seu endividamento e reestruturou o capital através da venda de cerca de 1,5 mil milhões $ em Bitcoin, redirecionando recursos da expansão tradicional do hashrate para infraestruturas de IA e HPC. Apesar da pressão financeira de curto prazo resultante das variações do justo valor do Bitcoin, a base de ativos centrais da MARA — centrada nos recursos energéticos — e a aquisição da central Long Ridge estabeleceram as bases para a transição para uma plataforma de infraestrutura digital.
A avaliação atual do mercado sobre a transformação da MARA depende menos da validade da narrativa da IA e mais da compatibilidade entre o calendário de concretização dessa narrativa em fluxos de caixa reais e a paciência dos mercados de capitais. A primeira carga de IA da Long Ridge está prevista para operação comercial em meados de 2028, o que significa que, até lá, a MARA dependerá sobretudo das receitas da mineração de Bitcoin para sustentar as operações e financiar os elevados investimentos em curso. Se a MARA se tornará o próximo caso de sucesso na monetização de ativos energéticos, à semelhança da CoreWeave, ou se enfrentará dificuldades de tesouraria e financiamento num contexto de forte concorrência de capitais, ficará a saber-se nos próximos resultados financeiros.
FAQ
P: Quantos Bitcoins vendeu a MARA no 1.º trimestre de 2026 e porquê?
A MARA vendeu cerca de 20 880 Bitcoins a um preço médio de 70 137 $ por moeda no 1.º trimestre de 2026, totalizando aproximadamente 1,5 mil milhões $. As receitas foram utilizadas sobretudo para recomprar obrigações convertíveis com desconto, reduzindo a dívida total de 3,3 mil milhões $ para 2,3 mil milhões $, e para financiar a expansão para infraestrutura de IA e data fabric.
P: Qual o hashrate atual e as reservas de Bitcoin da MARA?
No final do 1.º trimestre de 2026, o hashrate energizado da MARA atingiu o recorde de 72,2 EH/s, um aumento de 33% em termos homólogos. Após a venda, as reservas de Bitcoin da empresa desceram de 38 689 para cerca de 35 303 moedas.
P: Quais são os principais ativos da MARA para a transição para a infraestrutura de IA?
A 30 de abril de 2026, a MARA anunciou a aquisição, por 1,5 mil milhões $, da Long Ridge Energy & Power, no Ohio, que inclui uma central a gás natural de 505 MW e mais de 1 600 acres de terreno, suportando mais de 600 MW de carga de IA a longo prazo. A empresa estabeleceu ainda uma parceria estratégica com a Starwood Digital Ventures para converter instalações de mineração existentes em data fabrics de IA.
P: Como mudou a posição da MARA entre as empresas públicas detentoras de Bitcoin?
Após a venda de Bitcoin no 1.º trimestre de 2026, a MARA desceu do segundo para o quarto lugar entre as empresas públicas detentoras de Bitcoin.
P: Quais são os principais riscos que a MARA enfrenta na transição para a IA?
A MARA ainda não celebrou contratos de HPC, pelo que o seu modelo de negócio em IA carece de catalisadores críticos para validação. A construção da primeira carga de IA da Long Ridge deverá iniciar-se no primeiro semestre de 2027, estando prevista a entrada em operação comercial para meados de 2028. Durante este período, a empresa poderá enfrentar pressões significativas de investimento e dúvidas do mercado quanto à visibilidade das receitas. Adicionalmente, a volatilidade contínua do preço do Bitcoin continua a impactar diretamente a rentabilidade da mineração da MARA.
P: Como afetam as políticas regulatórias dos EUA o setor da mineração de Bitcoin?
Em 2026, a regulação federal norte-americana diverge: por um lado, a proposta do Mined in America Act apoia a mineração doméstica e estabelece um sistema voluntário de certificação; por outro, a proposta da administração Biden visa aplicar um imposto de 30% sobre o consumo de eletricidade utilizado na mineração de Bitcoin. Entretanto, a SEC e a CFTC clarificaram que as recompensas de mineração de Bitcoin não são valores mobiliários, eliminando uma importante incerteza regulatória no setor.




