Escrito por: Yi He
À medida que a taxa de penetração das criptomoedas no mercado financeiro global continua a aumentar, as suas características descentralizadas e transfronteiriças entram em forte conflito com os sistemas tradicionais de regulamentação financeira. Os Estados Unidos, como o núcleo do mercado de criptomoedas mundial, cuja direção regulatória não só determina a sobrevivência e o desenvolvimento do setor doméstico, mas também influencia profundamente o panorama global das criptomoedas. Desde o início do governo Biden, a regulamentação de criptomoedas nos EUA tem apresentado uma tendência de reforço com foco na conformidade, com restrições mais severas. Após o retorno de Trump ao seu segundo mandato, a orientação regulatória mudou significativamente, inclinando-se para promover a inovação e delimitar fronteiras.
Este artigo irá destacar as legislações, políticas principais e ações regulatórias específicas durante os dois mandatos, analisando os motivos e impactos por trás das diferenças de abordagem, apresentando claramente a evolução da regulamentação de criptomoedas nos EUA.
一、Governo Biden: Era de “Reforço Regulatório” das Criptomoedas (2021-2024)
Durante o mandato de Biden, a postura central em relação ao setor de criptomoedas foi de “cautela rigorosa e fortalecimento do controle”, com o objetivo principal de prevenir riscos financeiros associados às criptomoedas e combater atividades financeiras ilegais. Por meio de uma série de ações concretas, projetos de lei e diretrizes regulatórias, foi construído um sistema de supervisão cada vez mais restritivo, impondo fortes limites ao setor.
1.1 Medidas regulatórias principais: “Ação de Asfixia 2.0” e restrições ao setor
Durante este período, a iniciativa mais influente foi a “Ação de Asfixia 2.0” (Choke Point 2.0), promovida conjuntamente pelo Departamento de Justiça e pelo Departamento do Tesouro dos EUA. Esta não foi uma única política, mas um conjunto de ações de fiscalização direcionadas, com foco em limitar a cooperação entre bancos e instituições financeiras com empresas de criptomoedas, controlando assim o fluxo de fundos para o setor.
Especificamente, a implementação ocorreu através de:
Essa ação resultou na obstrução do fluxo de liquidez para o setor de criptomoedas, levando muitas pequenas e médias empresas a dificuldades de sobrevivência, além de limitar a inovação no mercado de criptomoedas, refletindo a postura de restrição do governo Biden.
Caso 1: Crise de falência do Silvergate — Influenciada pela “Ação de Asfixia 2.0” e agravada pelo colapso da exchange FTX em 2022, as ações do Silvergate despencaram 92%, levando à sua saída do negócio de stablecoins e à falência, enquanto vários bancos regionais encerraram serviços relacionados a criptomoedas, cortando canais de liquidez fiduciária do setor.
Caso 2: Acordo de US$ 4,3 bilhões da Binance — Em novembro de 2023, a Binance chegou a um acordo com reguladores americanos por violar regras de AML e de valores mobiliários, pagando uma multa recorde de US$ 4,3 bilhões, demonstrando a rigorosa postura regulatória da época, além de marcar um caso emblemático de repressão do governo Biden.
1.2 Legislação, regulamentos e projetos de lei
Embora o governo Biden não tenha promulgado uma lei específica de regulamentação de criptomoedas, apresentou diversos projetos de lei e diretrizes que delinearam o quadro regulatório, centrando-se em três dimensões principais: “atribuição de atributos às criptomoedas”, “regulação de plataformas de negociação” e “proteção ao investidor”.
Lei de Regulação de Ativos Criptográficos e Proteção ao Investidor (2023): Proposta por membros democratas do Congresso, foi uma tentativa representativa de legislação regulatória. Define a maioria das criptomoedas como “commodities”, enquanto ativos com atributos de valores mobiliários ficam sob supervisão da SEC. Exige que todas as plataformas de negociação se registrem na SEC, cumprindo requisitos similares aos de bolsas de valores, incluindo divulgação de informações, proteção ao investidor e AML. Proíbe ainda propaganda enganosa e impõe multas elevadas e revogação de licenças para plataformas infratoras.
Lei de Combate à Lavagem de Dinheiro de Ativos Digitais (2022): Focada na AML e CFT, exige que exchanges e provedores de carteiras cumpram a identificação de beneficiários finais, reportando transações em tempo real ao FinCEN. Regulamenta transações ponto a ponto (P2P) e transferências transfronteiriças, preenchendo lacunas na supervisão do setor.
Diretrizes das agências reguladoras: SEC, CFTC e Departamento do Tesouro emitiram várias orientações detalhando requisitos regulatórios adicionais. Além disso, destacam-se dois casos principais:
Caso 3: Acusação da SEC contra Coinbase — Em junho de 2023, a SEC processou a Coinbase por operar ilegalmente sem registro, alegando que a plataforma negociou pelo menos 13 tokens considerados valores mobiliários, como Solana, Cardano e Polygon, evitando obrigações de divulgação e proteção ao investidor. Como consequência, as ações da Coinbase caíram até 20,9% durante o pregão, fechando com queda de 12,1%, exemplificando a fiscalização da SEC.
Caso 4: Processo criminal contra fundador da FTX — Após o colapso da FTX, as autoridades investigaram severamente a exchange, levando à condenação de seu fundador, Sam Bankman-Fried, a 25 anos de prisão por fraude e lavagem de dinheiro. Essa dupla abordagem de responsabilização empresarial e pessoal reforçou a postura de fiscalização e alertou para riscos de conformidade no setor.
De modo geral, as legislações e projetos de lei do governo Biden visaram integrar o setor de criptomoedas ao sistema financeiro tradicional, reforçando a conformidade e a fiscalização para mitigar riscos, embora tenham limitado a inovação.
二、Novo governo Trump: “Mudança de direção e flexibilização” (2025 até o presente)
Após assumir o cargo em 2025, Trump rapidamente ajustou a política regulatória de criptomoedas, abandonando a abordagem de restrição do governo Biden e adotando princípios de “neutralidade tecnológica, incentivo à inovação e delimitação de fronteiras”. Por meio de decretos, propostas legislativas e mudanças na estrutura das agências reguladoras, buscou aliviar restrições, tentando reposicionar os EUA como líder global em finanças digitais.
2.1 Decreto principal: “Fortalecer a liderança dos EUA em tecnologia financeira digital”
Em janeiro de 2025, Trump assinou o decreto “Fortalecer a liderança dos EUA em tecnologia financeira digital”, que serviu como documento norteador de sua política de regulamentação de criptomoedas. Este decreto revogou várias ações restritivas do governo Biden, estabelecendo três princípios e requisitos principais:
A publicação deste decreto marcou uma mudança de paradigma, sinalizando uma política de flexibilização e estímulo ao setor, fortalecendo a confiança do mercado e impulsionando a atividade de criptomoedas.
Caso 5: Anistia a figuras do setor de criptomoedas — Durante seu segundo mandato, Trump concedeu anistia a figuras importantes do setor, incluindo Zhao Changpeng (fundador da Binance), equipe da BitMEX e Ross Ulbricht, além de reduzir em 61% as multas de AML e sanções financeiras, de US$ 4,3 bilhões para US$ 1,7 bilhão em 2025. Em abril de 2025, o Fed também revogou as diretrizes de 2022 sobre ativos de criptomoedas bancários e tokens fiduciários, evidenciando uma mudança radical na abordagem regulatória, refletindo a diferença de postura entre os dois governos.
2.2 Principais projetos de lei: estrutura regulatória para stablecoins e mercado de criptomoedas
Desde o segundo mandato de Trump, várias propostas de lei foram impulsionadas, destacando-se o “Genius Act”, “Stable Act” e “Digital Asset Market Clarity Act”, que visam criar uma estrutura regulatória clara em três aspectos:
“Stable Act” (2025): Regulamenta especificamente as stablecoins, classificando-as como “instrumentos de pagamento” sob supervisão do Office of the Comptroller of the Currency (OCC). Exige que emissores sejam instituições financeiras licenciadas, mantenham reservas (como dólares ou títulos do Tesouro) em contas do Fed, e divulguem auditorias mensais, proibindo stablecoins sem reservas adequadas (“algorítmicas”). Essa legislação preenche lacunas na supervisão de stablecoins, promovendo sua integração ao sistema financeiro tradicional.
“Genius Act” (2025): Foca na inovação e proteção do usuário, atribuindo a supervisão de criptomoedas como “commodities” à CFTC, enquanto valores mobiliários permanecem sob SEC. Cria mecanismos de isenção regulatória para startups, além de um fundo de compensação para investidores prejudicados por violações ou ataques cibernéticos, fortalecendo a proteção ao investidor.
“Digital Asset Market Clarity Act” (2025): Define claramente as competências da SEC e CFTC, evitando sobreposição regulatória. CFTC regula commodities digitais e plataformas de derivativos, enquanto SEC supervisiona valores mobiliários e fundos de investimento. Cria uma comissão de coordenação regulatória, simplifica o registro de plataformas e permite operações simultâneas de derivativos de commodities e valores mobiliários, aumentando eficiência e segurança.
2.3 Políticas complementares: estratégias e melhorias regulatórias
Além dos decretos e leis principais, Trump implementou várias ações para aprimorar o sistema regulatório:
Plano de reserva estratégica de Bitcoin: Em março de 2025, o governo anunciou a aquisição conjunta de Bitcoin pelo Tesouro e pelo Fed, criando uma reserva oficial, visando legitimar a criptomoeda e proteger o dólar contra volatilidade cambial, além de reforçar a posição dos EUA no mercado global de criptomoedas.
Tecnologia regulatória avançada: Incentivou o uso de blockchain para monitoramento em tempo real de transações, aprimorando a detecção de lavagem de dinheiro e financiamento terrorista; promoveu parcerias com empresas e centros de pesquisa para desenvolver tecnologias de supervisão mais precisas.
Cooperação internacional: Trump buscou liderar a formulação de regras globais de supervisão de criptomoedas, promovendo padrões comuns via G20 e APEC, além de firmar acordos com a UE e Japão para compartilhamento de informações e ações conjuntas contra atividades ilegais transfronteiriças.
Para facilitar a compreensão, aqui estão cinco casos emblemáticos resumidos:
| Caso nº | Nome do Caso | Governo | Políticas Relacionadas | Impacto Principal |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Crise do Silvergate | Biden (2021-2024) | Ação de Asfixia 2.0; restrições bancárias | Cortou canais de liquidez fiduciária; fechamento de bancos regionais |
| 2 | Acordo da Binance de US$ 4,3 bilhões | Biden | AML e valores mobiliários; repressão | Maior multa do setor; reforço na fiscalização |
| 3 | Acusação da SEC contra Coinbase | Biden | Regras de registro; supervisão de exchanges | Queda de ações; exemplo de fiscalização rigorosa |
| 4 | Processo criminal contra fundador da FTX | Biden | Combate a atividades ilegais; responsabilização dupla | Alerta de riscos de conformidade; reforço da fiscalização |
| 5 | Anistia de figuras do setor | Trump (2025-) | Decretos de flexibilização; revogação de restrições | Reversão de repressão; estímulo ao setor |
三、Análise das diferenças de políticas: choque de conceitos e motivações profundas
3.1 Filosofia regulatória: prevenção de riscos vs incentivo à inovação
A principal diferença entre as políticas de Biden e Trump reside na filosofia de regulação. Biden prioriza “prevenção de riscos”, considerando as criptomoedas uma fonte de instabilidade financeira, com características que facilitam lavagem de dinheiro, financiamento terrorista e fraudes, adotando uma postura de controle rigoroso para proteger o sistema financeiro e os investidores, com foco na contenção e na repressão, limitando a inovação.
Por outro lado, Trump defende “inovação e fronteiras claras”, vendo as criptomoedas como uma vantagem competitiva para manter a liderança dos EUA na economia digital. Assim, busca-se flexibilizar a regulamentação, estimular a inovação tecnológica, e estabelecer limites claros para evitar riscos, promovendo a integração com o sistema financeiro tradicional.
3.2 Motivações políticas e interesses econômicos
As diferenças também refletem interesses políticos e econômicos. Biden favorece instituições financeiras tradicionais, como grandes bancos e seguradoras, que temem a competição das criptomoedas e apoiam regulações restritivas. Além disso, reforça a segurança financeira para ganhar legitimidade perante o público.
Trump, por sua vez, busca apoiar empresas de tecnologia e startups de criptomoedas, além de atrair jovens investidores, fortalecendo sua base eleitoral. Sua estratégia visa também consolidar a posição do dólar e ampliar a influência dos EUA na regulamentação global, promovendo crescimento econômico e empregos no setor digital.
四、Impacto setorial e perspectivas futuras
4.1 Impacto diferenciado no setor de criptomoedas nos EUA
A política de Biden resultou em forte restrição ao setor: bancos cortaram relações, muitas empresas fecharam ou migraram para outros países, e a conformidade onerou o mercado, levando à queda de preços de principais criptomoedas e ao colapso de grandes instituições como a FTX, aumentando o medo e a instabilidade.
Por outro lado, a abordagem de Trump, com flexibilização e clareza regulatória, trouxe um “renascimento” ao setor: redução de custos de conformidade, retomada de parcerias bancárias, maior atração de startups, aumento de confiança e valorização de ativos, além de maior atividade de inovação e expansão de mercado.
4.2 Tendências futuras de regulamentação
Com base na direção atual, espera-se que a regulamentação nos EUA evolua para:
五、Conclusão
Da repressão de Biden à flexibilização de Trump, a política regulatória dos EUA para criptomoedas passou por uma transformação radical, impulsionada por diferenças profundas de filosofia, interesses políticos e objetivos econômicos. Biden adotou uma postura de controle para mitigar riscos, embora tenha limitado a inovação; Trump, por sua vez, promoveu uma abordagem de estímulo à inovação, com limites claros, buscando consolidar a liderança dos EUA no setor digital.
Como maior mercado de criptomoedas do mundo, as políticas americanas influenciam o cenário global. A tendência futura aponta para uma regulamentação mais detalhada, equilibrada entre inovação e segurança, consolidando os EUA como centro de inovação e regulação no universo cripto. Para as empresas do setor, é fundamental acompanhar as mudanças regulatórias, adaptar-se às exigências de conformidade e inovar de forma responsável para garantir crescimento sustentável.