Porque é que a MARA subiu mais de 11 % num só dia? Empresas de mineração de Bitcoin apostam na IA perante divergência do mercado

Mercados
Atualizado: 09/06/2026 02:22

8 de junho de 2026: As ações da empresa de mineração de Bitcoin MARA Holdings (NASDAQ: MARA) encerraram a sessão a 13,78 $, registando uma subida de 11,68 % num único dia, marcada por uma volatilidade intradiária significativa. Este forte movimento de recuperação ocorreu num contexto de melhoria do sentimento em todo o sector cripto, constituindo uma janela relevante para analisar o desempenho futuro da MARA.

O que desencadeou diretamente esta valorização?

Os ganhos expressivos da MARA resultaram de uma conjugação de fatores. Do ponto de vista de mercado, o preço do Bitcoin recuperou de forma acentuada após uma forte correção. Anteriormente, o Bitcoin tinha caído abaixo do patamar-chave dos 60 000 $, alimentando receios de uma "segunda-feira negra" no universo cripto e pressionando as ações das empresas de mineração — a própria MARA afundou 12 % num só dia. Com o alívio das tensões geopolíticas no Médio Oriente e o encerramento forçado de posições curtas no mercado de futuros de Bitcoin, o BTC recuperou rapidamente para cima dos 63 000 $. Este movimento reavivou o otimismo em todo o sector, com a MARA e outras ações associadas ao Bitcoin a beneficiarem de forte procura compradora.

Adicionalmente, a conferência Macquarie AI Infrastructure, agendada para 10 de junho, elevou as expectativas de mercado de que a MARA venha a detalhar a sua transformação estratégica para IA e HPC. Alguns investidores anteciparam-se ao evento. Esta narrativa de transformação constitui, por si só, uma fonte independente de valorização, que, combinada com a evolução do preço do Bitcoin, amplifica o efeito.

Qual é o ponto de situação do mercado de Bitcoin?

Segundo dados de mercado da Gate, a 9 de junho de 2026, o par BTC/USDT negociava nos 62 995,3 $, uma descida de 0,63 % nas últimas 24 horas. Após atingir um máximo de curto prazo próximo dos 82 000 $ em maio, o Bitcoin manteve a trajetória de correção, com a sua capitalização total a registar uma redução significativa. Historicamente, os mercados "bear" tendem a terminar entre 12 e 18 meses antes do próximo halving (previsto para abril de 2028, a cerca de 100 000 blocos de distância), sugerindo que o mercado poderá estar atualmente à procura de um fundo de ciclo.

Importa sublinhar que a transmissão do preço entre o Bitcoin e as ações das mineradoras não é linear. Os mineradores têm exposição direta ao preço do Bitcoin, mas também são impactados pela concorrência no "hash rate", custos energéticos, condições de financiamento e estrutura de capital própria.

Como evoluiu a narrativa empresarial da MARA?

A MARA está a passar de um modelo de "mineradora pura de Bitcoin" para um perfil de "infraestrutura energética + serviços de computação IA/HPC". De acordo com os comunicados da empresa, no final do primeiro trimestre de 2026, a taxa operacional de hash atingiu os 72,2 EH/s, um aumento de cerca de 33 % face ao ano anterior. A empresa dispõe já de mais de 1,1 GW de potência ligada à rede e está a preparar as bases para energia e infraestrutura associadas à IA, nomeadamente através da construção de um data center com refrigeração líquida em Abu Dhabi, aquisição de parques eólicos e aproveitamento de gás associado a campos petrolíferos para geração elétrica.

A transformação inclui: parceria com a Starwood para desenvolvimento imobiliário de data centers e reconversão de instalações de mineração para clientes de cloud hyperscale e IA; aquisição dos ativos energéticos Long Ridge (conclusão prevista para o segundo semestre de 2026), acrescentando cerca de 1 600 acres contíguos, 200 MW de capacidade ativa e uma central de ciclo combinado de 505 MW. A orientação estratégica de longo prazo da MARA aponta para receitas de cerca de 1,2 mil milhões $ e lucros de 145 milhões $ até 2029.

É de salientar que a MARA planeia direcionar aproximadamente 90 % da sua capacidade de mineração não-custodial para infraestruturas de IA e IT, sem, contudo, abandonar totalmente a atividade de mineração.

Os dados financeiros da MARA sustentam a avaliação atual?

O relatório trimestral mais recente da MARA revela uma clara divergência. Por um lado, a empresa alcançou um máximo histórico de produção de hash, extraindo 2 247 Bitcoins no trimestre (cerca de 25 por dia). Por outro lado, as receitas caíram 18 % em termos homólogos, para 174,6 milhões $, registando um prejuízo líquido de aproximadamente 1,3 mil milhões $.

Contudo, este prejuízo exige uma análise detalhada. Cerca de 1 mil milhões $ resultam da reavaliação ao justo valor dos ativos digitais — as normas contabilísticas dos EUA obrigam as empresas a marcar os ativos cripto ao valor de mercado em cada trimestre. Com o Bitcoin a recuar cerca de 22 % no período, registaram-se perdas contabilísticas significativas, que não correspondem a saídas efetivas de caixa. O custo de mineração por Bitcoin ronda os 40 047 $, pelo que, com o BTC nos 63 000 $, o negócio de mineração continua a gerar lucros líquidos positivos.

No balanço, a MARA vendeu cerca de 1,5 mil milhões $ em Bitcoin (aproximadamente 20 880 moedas) no primeiro trimestre, utilizando o encaixe sobretudo para recomprar mais de 1 mil milhões $ em obrigações convertíveis com desconto. Esta operação reduziu o passivo total de cerca de 3,3 mil milhões $ para 2,3 mil milhões $ — uma descida de 30 %. Após a venda, a MARA mantém cerca de 35 303 Bitcoins, sendo o quarto maior detentor corporativo de Bitcoin a nível mundial. Informações públicas indicam que a MARA minerou 713 Bitcoins em junho e não vendeu nenhum, mantendo as reservas em torno de 49 940 moedas.

Como avaliam investidores institucionais e participantes de mercado a MARA?

As opiniões de mercado sobre a avaliação da MARA estão fortemente divididas. O preço-alvo médio dos analistas para 12 meses é de 14,17 $ (máximo: 27 $, mínimo: 7 $). A BTIG mantém uma recomendação de "Compra" e um objetivo de 27 $, destacando o potencial de valorização decorrente da transformação para IA.

Nem todas as instituições partilham deste otimismo. A Bernstein reduziu o preço-alvo de 23 $ para 17 $, mantendo a recomendação "Market Perform", citando resultados fracos no primeiro trimestre — queda de receitas e imparidade dos ativos digitais penalizaram os fundamentais. A Bernstein mostra-se mais otimista em relação a concorrentes que já concretizaram a comercialização de IA (como a Riot Platforms e a Core Scientific), tendo subido as respetivas recomendações e objetivos.

Em termos de avaliação, a MARA negoceia atualmente a um PER de cerca de 285x, muito acima da mediana dos últimos cinco anos (14,7x). Esta discrepância indica que os investidores devem ponderar cuidadosamente se as expectativas de crescimento que sustentam a avaliação elevada são realistas.

Que riscos e desafios enfrenta a MARA durante a transformação?

Apesar da estratégia de transformação da MARA estar bem definida, a execução enfrenta múltiplas incertezas.

Em primeiro lugar, as pressões de investimento em capital são elevadas. A transição da mineração para infraestruturas de computação IA exige um esforço financeiro inicial substancial, obrigando a MARA a continuar a captar fundos para sustentar a expansão. Em segundo lugar, o panorama competitivo está a evoluir rapidamente. A Riot Platforms já gera receitas de alojamento de IA (33,2 milhões $ no primeiro trimestre) e planeia investir cerca de 400 milhões $ na expansão do seu centro de computação IA em Corsicana. À medida que mais mineradoras migram para a IA, os custos de acesso a energia de qualidade, clientes e talento tenderão a aumentar. Em terceiro lugar, subsiste o risco associado ao Bitcoin. A MARA assinala que cada variação de 10 000 $ no preço do Bitcoin altera o justo valor dos seus ativos digitais em cerca de 350 milhões $.

Adicionalmente, merece atenção a atividade dos "insiders" da MARA. Nos últimos três meses, membros da administração venderam cerca de 2 milhões $ em ações, sem registo de compras.

Como está a evoluir o sector de mineração de Bitcoin?

O sector de mineração de Bitcoin apresenta atualmente uma divergência acentuada de avaliações. Empresas que conseguiram transitar para infraestruturas de IA e geram receitas estáveis obtêm prémios de valorização muito superiores às que mantêm o modelo de "mineração pura". O mercado valoriza os data centers de IA com base em fluxos de caixa contratualizados, ativos energéticos e capacidade operacional de longo prazo, enquanto a mineração é encarada como uma aposta de elevado risco (Beta) no preço do Bitcoin.

Neste contexto, o progresso da transformação da MARA situa-se entre os dois extremos: a orientação estratégica é clara, a estrutura de ativos está em consolidação, mas as receitas comerciais de IA em larga escala ainda não se concretizaram. O fecho do negócio Long Ridge está previsto para o segundo semestre de 2026 e a primeira fase do data center Starwood deverá ser lançada no primeiro semestre de 2027, iniciando operações até meados de 2028. Estes marcos farão com que o mercado acompanhe de perto a evolução da transformação da MARA ao longo de 2026 e 2027.

Resumo

Em síntese, o desempenho futuro da MARA dependerá de várias variáveis-chave.

A evolução do preço do Bitcoin é o fator externo mais direto. Se o BTC consolidar um fundo próximo dos 60 000 $ e iniciar um novo ciclo ascendente, a MARA beneficiará de margens de mineração mais favoráveis e de um maior apetite pelo risco no mercado. Caso o BTC permaneça sob pressão, a MARA continuará a enfrentar desafios de ajustamento ao justo valor, afetando a confiança dos investidores.

O ritmo de comercialização da IA é a variável central a médio prazo. Quando a MARA assinar o seu primeiro contrato de arrendamento de IA e reconhecer as primeiras receitas de infraestrutura IA, o mercado poderá reavaliar a empresa como "fornecedora de infraestrutura IA" em vez de "mineradora de Bitcoin".

A disciplina na alocação de capital é igualmente determinante. A capacidade da MARA para equilibrar o investimento expansionista com a estabilidade financeira ditará a sua viabilidade e valorização a longo prazo.

FAQ

Q: Quais são os principais fatores que estiveram na origem da recente valorização da MARA?

A: O movimento resultou de três fatores: o Bitcoin recuperou do mínimo recente (cerca de 60 000 $) para cima dos 63 000 $, impulsionando o sentimento no sector cripto; ocorreu um "short squeeze" no mercado de futuros; e há expectativa de que a MARA anuncie progressos estratégicos na próxima conferência de infraestrutura IA.

Q: A MARA continua a ser uma mineradora pura de Bitcoin?

A: A MARA está a transitar de um modelo de mineração pura para "infraestrutura energética + serviços de computação IA/HPC", planeando direcionar cerca de 90 % da sua capacidade de mineração não-custodial para IA e IT, mantendo, contudo, a atividade de mineração.

Q: As instituições estão alinhadas quanto à perspetiva para a MARA?

A: Existe uma divergência clara entre instituições. A BTIG mantém um preço-alvo de 27 $ e recomendação de "Compra", enquanto a Bernstein reduziu o objetivo de 23 $ para 17 $ e mantém a recomendação "Market Perform".

Q: Qual é o impacto do preço do Bitcoin nas contas da MARA?

A: O impacto é significativo. A MARA reporta que cada variação de 10 000 $ no preço do Bitcoin altera o justo valor dos seus ativos digitais em cerca de 350 milhões $.

Q: Qual é o maior risco na transformação da MARA para IA?

A: Os principais riscos são a pressão dos investimentos em capital, o aumento da concorrência no sector e a incerteza quanto à concretização de receitas comerciais. Os data centers de IA têm ciclos de construção longos, sendo que as primeiras receitas relevantes só são esperadas entre 2027 e 2028.

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