Os Emirados Árabes Unidos anunciaram a 28 de abril de 2024 que vão sair da OPEP a 1 de maio de 2024, após quase 60 anos de filiação, segundo delegados da OPEP+ e analistas citados em reportagens sobre a saída. A saída assinala uma mudança significativa no poder da organização, com os EAU descritos como o quarto maior produtor da OPEP e o maior a sair do grupo.
A saída dos EAU foi uma surpresa para fontes da OPEP+, de acordo com cinco delegados da OPEP+ não identificados. Antes de perturbações regionais recentes, Abu Dhabi bombeava cerca de 3,4 milhões de barris por dia (bpd), representando aproximadamente 3% do abastecimento mundial de crude. A quota de produção dos EAU dentro da OPEP situava-se em 3,5 milhões de bpd, embora o país tenha capacidade para produzir 5 milhões de bpd de petróleo bruto e líquidos.
A saída vai complicar os esforços da OPEP+ para equilibrar o mercado através de ajustamentos à oferta, já que o grupo terá controlo sobre menos da produção global, segundo quatro das cinco fontes da OPEP+ citadas. Uma vez fora da OPEP, os EAU vão juntar-se a produtores de petróleo independentes como os Estados Unidos e o Brasil, capazes de bombear à vontade sem metas de produção.
Têm existido tensões entre os EAU e a Arábia Saudita relativamente à quota de produção dos emiratis. Segundo Helima Croft, analista da RBC Capital Markets, “Durante anos, Abu Dhabi tem estado a tentar rentabilizar o seu investimento na expansão da capacidade.” Os EAU têm prosseguido um programa de investimento de $150 mil milhões para expandir a capacidade de produção, procurando uma quota maior para refletir esta expansão. No entanto, Croft assinalou que a guerra EUA-Israel contra o Irão abrandou estes planos depois de drones e foguetes terem danificado as instalações de produção dos EAU.
Rumores sobre a saída dos EAU têm circulado há anos, no meio do deteriorar das relações com Riade devido a conflitos no Sudão, Somália e Iémen. Os EAU também se têm aproximado cada vez mais dos Estados Unidos e de Israel.
Apesar da saída dos EAU, analistas e responsáveis indicam que a aliança mais ampla da OPEP+ deverá manter-se intacta. O Iraque, o terceiro maior produtor na OPEP+ depois da Arábia Saudita e da Rússia, não tem qualquer plano para sair da OPEP+ porque quer preços de petróleo estáveis e aceitáveis, segundo dois responsáveis do setor petrolífero iraquiano citados na terça-feira, 28 de abril.
Gary Ross, CEO da Black Gold Investors e um veterano observador da OPEP, afirmou que “A OPEP+ não vai colapsar, porque a Arábia Saudita ainda vai querer gerir o mercado com a ajuda do grupo.” Ross referiu que a Arábia Saudita, que pode produzir 12,5 milhões de bpd mas tem mantido a produção abaixo dos 10 milhões nos últimos anos, continua a ser o pilar da aliança: “No fim de contas, a Arábia Saudita era essencialmente a OPEP — o único país com capacidade sobrante.”
Helima Croft acrescentou que os membros da OPEP+ se vão focar mais na reconstrução de instalações atingidas pela guerra do que em avançar para cortes de produção num futuro próximo, o que significa que “a rutura mais ampla da OPEP+ não está nos planos para já.” Jorge Leon, um ex-responsável da OPEP agora na Rystad Energy, afirmou: “A retirada dos EAU marca uma mudança significativa para a OPEP … a implicação no longo prazo é uma OPEP estruturalmente mais fraca.”
A influência da OPEP sobre o mercado global do petróleo tem diminuído significativamente ao longo de décadas. Criada em 1960, a OPEP controlava outrora mais de 50% da produção global. Com o crescimento da produção dos produtores rivais, a quota do grupo desceu para cerca de 30% do total de output de petróleo e líquidos de petróleo do mundo, que foi de 105 milhões de barris por dia no ano passado.
A formação da OPEP+ em 2016 alargou a aliança para incluir produtores não pertencentes à OPEP liderados pela Rússia, anteriormente uma das principais rivais da Arábia Saudita. Esta expansão deu ao grupo controlo sobre aproximadamente 50% da produção total de petróleo do mundo em 2025, segundo a Agência Internacional de Energia. A perda dos EAU significa que o controlo da OPEP+ vai descer para cerca de 45%.
Os Estados Unidos surgiram como o maior rival da OPEP nos últimos 15 anos, aumentando a produção para até 20% do total mundial impulsionados pela explosão do petróleo de xisto. Esta mudança levou a decisão da OPEP, em 2016, de formar a aliança mais ampla da OPEP+.
Os EAU foram o quarto produtor a abandonar a OPEP+ nos últimos anos, embora, de longe, o maior. Angola abandonou o bloco em 2024, citando discordâncias sobre os níveis de produção. O Equador saiu da OPEP em 2020, e o Qatar deixou o grupo em 2019.
A pertença à OPEP+ dá aos países peso diplomático e internacional, um fator que analistas citam como relevante para a retenção de membros. A guerra entre Israel e o Irão resultou no que a Agência Internacional de Energia descreve como a maior perturbação de abastecimento global de energia de sempre, em termos de produção diária de petróleo. O conflito revelou divergências entre países do Golfo, incluindo entre os EAU e a Arábia Saudita.
O Presidente dos EUA, Donald Trump, acusou a OPEP de “engatar o resto do mundo” ao inflacionar os preços do petróleo e sugeriu que os EUA poderão reconsiderar o apoio militar ao Golfo devido às políticas petrolíferas da OPEP. No entanto, foi Trump quem ajudou a convencer a OPEP+ a cortar a produção em 2020 durante a pandemia de COVID, quando os preços do petróleo desceram e os produtores dos EUA sofreram.
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