A Reserva Federal dos EUA (Fed) decidiu, a 29 de abril, na reunião do FOMC, manter inalterado o intervalo da taxa de referência em 3.50-3.75%, em linha com as expectativas do mercado. O comunicado oficial da Fed revelou também uma discordância interna evidente — dos 12 membros com direito a voto, 4 votaram contra, vindos de posições diferentes: o membro Stephen Miran defendeu um corte de 1 ponto percentual; e os presidentes do Banco da Reserva Federal de Cleveland, Beth Hammack, do Banco da Reserva Federal de Minneapolis, Neel Kashkari, e do Banco da Reserva Federal de Dallas, Lorie Logan, apoiaram a manutenção, mas opuseram-se ao comunicado com inclusão de redação que pende para uma postura mais acomodatícia. Esta reunião deverá ser a última reunião de política monetária de Jerome Powell enquanto presidente da Fed, cujo mandato termina a 15 de maio.
Conteúdo da decisão: votação 8-4, apontando claramente a inflação impulsionada pela energia
O comunicado da Fed descreveu a inflação atual como «elevated, in part reflecting the recent increase in global energy prices» (ainda em níveis elevados, em parte refletindo o aumento recente dos preços globais da energia); quanto ao emprego, referiu «job gains have remained low» (os ganhos de emprego têm permanecido baixos) e a taxa de desemprego «little changed» (pouco alterada). Nas orientações prospectivas, parte do texto manteve a redação-padrão «will carefully assess incoming data, the evolving outlook, and the balance of risks» (iremos avaliar cuidadosamente os dados que entrarem, as perspetivas em evolução e o equilíbrio dos riscos), e enfatizou «be prepared to adjust monetary policy as risks emerge» (estar preparados para ajustar a política monetária à medida que os riscos emergirem). Nesta reunião não foram divulgadas as mais recentes previsões económicas (SEP) nem o gráfico de pontos — estes dois itens só são publicados em quatro reuniões trimestrais: em março, junho, setembro e dezembro.
A estrutura das 4 dissidências precisa de ser desdobrada: Miran foi o único voto contra a favor de uma política mais frouxa e, por posição, é um falcão (mais dovish); Hammack, Kashkari e Logan, embora tenham apoiado a manutenção da taxa de juro inalterada, mostraram insatisfação com a forma como o comunicado deixou implícita a possibilidade de um futuro afrouxamento, pelo que, em termos de posição, são falcões. Por outras palavras, no momento o FOMC enfrenta simultaneamente pressões vindas de ambos os lados, o que torna o sinal de «se o próximo passo será cortar ou não» mais pouco claro do que em várias reuniões anteriores.
Conferência de imprensa de Powell: energia, Médio Oriente, ritmo de cortes, sucessão
Na conferência, Powell usou uma linguagem cautelosa sobre a ligação entre os preços da energia e a inflação: «Mais elevados preços da energia irão impulsionar a inflação geral, mas neste momento ainda é cedo para avaliar, em termos de dimensão e duração, o impacto dessa influência na economia.» Este enquadramento não definiu o choque nos preços do petróleo como um evento único, nem o tratou como uma nova fonte de inflação de longo prazo, deixando espaço para observação posterior.
Quanto à situação no Médio Oriente, a posição de Powell é consistente com o comunicado: «A influência da situação no Médio Oriente sobre a economia dos EUA é incerta; iremos continuar a acompanhar os riscos bilaterais.» Aqui, «bilaterais» refere-se ao duplo mandato da Fed: emprego e preços.
Sobre o ritmo dos cortes, Powell voltou a reiterar a posição habitual da Fed — «a política monetária não segue um percurso pré-definido; tomaremos as nossas decisões numa base reunião a reunião» (Monetary policy is not on a preset course and we’ll make our decisions on a meeting by meeting basis). O mercado esperava que Powell fornecesse orientações mais claras sobre o calendário de cortes, mas esta resposta mostra que a Fed não tenciona amarrar as mãos do sucessor na última reunião.
Relativamente ao seu próprio futuro, Powell deu duas camadas de resposta. Em primeiro lugar, a dimensão processual: «Se o meu sucessor não for confirmado antes do fim do meu mandato como presidente, irei servir como presidente interino (chair pro tem) até ser confirmado.» Em segundo lugar, sobre se irá continuar como membro: «Vou tomar uma decisão do modo que for mais favorável para a instituição e para as pessoas a quem servimos.» Powell não excluiu de forma clara a possibilidade de, após deixar o cargo de presidente, continuar como membro até que termine o mandato original em 2028.
Sucessão de Warsh: voto dividido em linha partidária, 13-11 aprovado; batalha no plenário na semana de 5/11
No mesmo dia da reunião do FOMC, o Senate Banking Committee aprovou o processo de nomeação de Kevin Warsh para presidente da Fed, por 13 votos a favor e 11 contra, enviando-o para votação no plenário. Todos os 13 republicanos votaram a favor e todos os 11 democratas votaram contra; este foi o primeiro caso na história desse comité em que o resultado da votação de um candidato a presidente da Fed seguiu totalmente uma divisão por linhas partidárias. Uma das chaves para o avanço desta votação foi o facto de a procuradora federal do Distrito de Columbia, Jeanine Pirro, em 24 de abril, ter anunciado o fim da investigação a Powell, e de o senador republicano Thom Tillis ter declarado apoio a que Warsh avance para a próxima fase.
Próximo passo: a votação no plenário deverá ocorrer na semana em que cai a 11 de maio; se for aprovado com sucesso, Warsh poderá concluir a sucessão antes de o mandato de Powell terminar em 15 de maio; se não for concluída dentro do prazo, Powell atuará como presidente interino (chair pro tem) até que Warsh seja confirmado.
Para o mercado, a mensagem desta reunião é: num contexto em que os riscos na energia e no Médio Oriente se intensificam, a Fed escolhe aguardar temporariamente, e internamente não existe um consenso claro sobre a direção futura; a última decisão durante o mandato de Powell não definiu uma direção para o sucessor; a última milha da sucessão de Warsh não tem obstáculos imediatos, mas ainda precisa de percorrer todo o processo de votação no plenário.
Este artigo sobre a Fed manter 3.5-3.75% com 4 dissidências: a última decisão durante o mandato de Powell surge pela primeira vez em Chain News ABMedia.
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